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A literatura clássica de gestão de portfólio costuma tratar a seleção de projetos como um processo racional, estruturado e orientado à estratégia. Na prática, especialmente em ambientes industriais e de CAPEX intensivo, a aprovação de projetos é fortemente influenciada por forças políticas, institucionais e circunstanciais.
O Construction Industry Institute (CII) reconhece explicitamente que muitos projetos não seguem o fluxo ideal de seleção. Demandas regulatórias, pressões operacionais, agendas individuais, mudanças de liderança ou eventos externos fazem com que projetos:
Devemos considerar a realidade que existem projetos aprovados em regime de exceção. Também existem projetos aprovados de forma não estruturada. Ou seja, não há o registro do que o levou à aprovação.
Em um ambiente de portfólio saudável, a seleção de projetos deveria gerar dois ativos informacionais igualmente importantes:
O registro estruturado do projeto aprovadoO registro estruturado dos projetos preteridosNa prática, o segundo quase nunca existe.
Projetos ressurgem com outro nome, outro sponsor, mas com os mesmos problemas estruturais.
O CII trata isso como falha de organizational learning: a organização decide, mas não aprende.
Um erro recorrente nas organizações é tratar a aprovação em comitê como o “fim” de um processo. Sob a ótica do Project Management Institute (PMI), a aprovação deveria marcar exatamente o oposto:
o início da disciplina formal do projeto.
Sem isso, o projeto segue adiante sustentado apenas por narrativas orais — altamente voláteis.
Muitas vezes são registrados apenas números gerais que deveriam agrupar diversos detalhes. Mas o problema mora nos detalhes. Sem o detalhamento do escopo, custos atrelados, riscos considerados, maturidade existente quando da aprovação, dentre outros parâmetros, partimos sem uma linha de base (mapa) para balizar a equipe de projeto.
Tanto o PMI quanto o CII são claros: não existe sucesso universal de projeto.
E se já e raro as organizações definirem o que é sucesso em cada aspecto do projeto, mais raro ainda é definir para quem cada aspecto é mais relevante. Se um projeto é nota 10 em um aspecto importante para um aspecto local e nota zero para um aspecto importante estrategicamente para a organização, obviamente o projeto tem uma nota média que tende a ser menor.
Na mesma linha de raciocínio, existem itens passíveis de notas de zero à 10 e outros que são imprescindíveis, must have. Estes funcionam como binários de sucesso ou fracasso, sem margem para subjetividade.
Um dos pontos mais negligenciados, e ao mesmo tempo mais críticos, é a consolidação das linhas de base.
Não existe gestão de mudança sem uma linha de base clara.
Muitas organizações tentam “implantar gestão de mudanças” sem antes ter clareza do que foi originalmente aprovado. O resultado é previsível: tudo vira mudança, logo nada é mudança.
Outro ponto de convergência forte entre CII e PMI é a visão da informação como ativo organizacional, não como propriedade de indivíduos.
Projetos são longos. Pessoas entram e saem. Comitês mudam. Sponsors trocam.
A única coisa que deveria permanecer estável é a memória decisória do projeto.
Sem isso, o projeto passa a depender excessivamente da memória de pessoas — um risco estrutural raramente reconhecido.
Projetos raramente começam grandes. Eles crescem.
o projeto inevitavelmente entra em ciclos de:
Esse é um dos maiores geradores de desgaste silencioso em projetos maduros.

Quando seleção, registro, linhas de base e governança da informação são bem estruturados, a organização cria algo muito maior do que “bons projetos”.
Ela cria:
O projeto deixa de ser um exercício de narrativa e passa a ser um exercício de gestão.
Conclusão: a omissão desde a seleção até a criação de termo de abertura detalhado e linhas de base cria um terreno de subjetividade propício para a interpretação de um projeto com fracasso
A experiência prática e a literatura de CII e PMI convergem para uma conclusão desconfortável:
muitos dos conflitos que surgem na execução são consequência direta de omissões na fase de seleção e aprovação.